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  • Clínica Maiêutica

Adolescência e Pandemia: crises dentro da crise




Como lidar com o meu filho adolescente? Essa é uma pergunta que os pais têm feito com muita frequência nestes últimos meses. E tem toda a razão, criar adolescentes por si só já é uma tarefa complexa e numa pandemia se torna ainda mais desafiadora.


Para iniciarmos o assunto, se você for um leitor que se encontra na fase adulta, te convido a fazer um exercício: gostaria que você se recordasse como foi a sua vivência na adolescência. Como você lidava com suas figuras de referência? Com os seus colegas da escola? Como você se comportava frente a frustrações? Enfim, se permita por alguns minutos fazer essa viagem no tempo.


Agora, proponho que entendamos as questões relativas a essa faixa etária, por que isso vai nos ajudar. Como você deve imaginar, os adolescentes estão passando por um turbilhão de hormônios e de emoções, além do desenvolvimento cerebral ocorrendo a todo o vapor. É importante destacar que a neurociência tem mostrado que o desenvolvimento do cérebro humano ocorre até, aproximadamente, os 25 anos. Pois é! Vou frisar aqui duas partes do cérebro que estão envolvidas nessas mudanças: o córtex pré-frontal e o sistema límbico.


Tentarei resumir: o córtex pré-frontal é a última camada do cérebro a se desenvolver e “só’’ é responsável pelo pensamento crítico, tomada de decisão, autocontrole, planejamento, atenção, organização, controle de emoção, de riscos e impulsos, empatia e resolução de problemas. Enquanto o córtex não se desenvolve por completo, os adolescentes costumam utilizar o sistema límbico, que é a estrutura responsável pelas respostas emocionais e o comportamento social, se caracterizando por decisões e ações impulsivas, emotivas e até agressivas.


Isso explica que, biologicamente, eles não estão preparados (e nem maduros!) o suficiente para ter alguns comportamentos, por isso tendem a ter posturas mais impulsivas, agressivas ou emotivas em demasia. Aposto que você já ouviu essas expressões populares que se associam aos extremos: 8 ou 80, amor ou ódio, tudo ou nada. Isso cabe muito bem ao adolescente, não é mesmo?


Lembrando que, a instabilidade do adolescente é uma maneira de ajuste e adaptação ao fato de não ser mais criança e ainda não ser adulto. A necessidade do apoio do adulto nesses anos de formação é fundamental, pois eles precisam de suporte para tomar decisões e as suas emoções.


Como se não bastasse todas as questões já esperadas da própria fase, mudanças hormonais, intensidade das emoções, crises de identidade... ainda entra nessa conta os efeitos de uma pandemia em curso. Haja elaborações!


Justamente, na época em que eles mais desejam autonomia, independência, se distanciar da autoridade da família e ficar mais próximos dos amigos, vem uma pandemia que os obriga a ficar ainda mais junto dos pais, longe dos amigos e todas essas mudanças no corpo e mente acontecendo.


Mas Greyce, o que eu faço? Vamos lá: parto de um lugar que tomarei muito cuidado pra não passar manuais ou fórmulas prontas, até porque isso não existe no que diz respeito ao comportamento humano, por toda a nossa complexidade. O que escreverei aqui são sugestões que você irá adaptar ao seu cotidiano, ao seu dia-a-dia, combinado?

Seu filho é um indivíduo que merece ser ouvido e que, provavelmente, já possui várias ideias, opiniões, pensamentos, valores e discursos que são próprios dele. E que podem ser com-ple-ta-men-te diferentes da sua visão de mundo. Calma, é assim mesmo! Eu sugiro que você ouça o seu filho, sem diminuir o que ele tem a dizer. Escute-o sem desmerecer ou subestimar os sentimentos dele (que você já deve ter percebido que são bem intensos!). Aproveite alguns momentos em que seu filho esteja disponível afetivamente para ficar junto, conversar sobre algo do universo dele e demonstrando um interesse genuíno pelo o que ele gosta. Estabeleça limites, tente manter uma rotina para nortear o dia e procure não entrar em embates desnecessários. Releve! Tenha calma! Respire! Por você e por ele.


E, por último, preste atenção nas mudanças drásticas de humor, agressividade, ansiedade e/ou no sono. Qualquer um desses elementos que forem exacerbados e causarem impacto na vida do adolescente e/ou da família, procure um profissional, ok?


Lembra do exercício do início do texto, que te pedi para se recordar da sua adolescência? Você já atravessou essa ponte e se tornou o adulto que é. Agora, o seu filho precisa fazer essa travessia também. Aguenta firme, pois sabemos que é uma fase que vai passar. Passou pra você, não foi?



Greyce Paraiso

Psicóloga

Mestranda em Avaliação Psicológica

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