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| Série Maternidade |

Afetividade e adoção

 

A afetividade é um assunto que muito me interessa, pois são os afetos que movem os pensamentos e estes por sua vez, movem as atitudes e ao que me consta, falar de afetividade no contexto da maternidade parece imprescindível, apesar de evidente.

Minha ideia para esse último post, que antecede um vídeo síntese foi alterada em função da sugestão de uma amiga querida, mãe por adoção, por condição, por sonho e por amor. Ela saberá que estou falando dela.

Na clínica psicológica temos a oportunidade de acompanhar relações fraternas diversas, são diferentes cenários, diferentes protagonistas, diferentes enredos, mas o afeto está sempre ali, como elemento sine qua non.

O processo de vinculação entre a mãe biológica e seu bebê conta com o favorecimento da experiência da gestação, a gradual percepção da existência do bebê, a simbiose vivida, em que a ligação corporal, espiritual e emocional são dadas pela natureza. Contudo, entre a mãe adotiva e o bebê, normalmente, não existe esse tempo. O vínculo será construído a posteriori, tanto para a mãe, como para seus familiares que também não a viram gestante.

O que define em grande parte a qualidade e os desdobramentos dessa formação de vínculo e sua manutenção é o afeto predominante na decisão de adotar: caridade ou amor.

Embora sejam termos muito próximos, tentarei diferenciá-los.

Caridade é um termo originado no vocábulo “chàris” que significa  graça; amor de Deus e do próximo; benevolência; bom coração e compaixão. Trata-se de uma ação altruísta.

Enquanto o amor etimologicamente, do latim “amor”, pode ser definido como uma forte afeição por outra pessoa. Trata-se de algo visceral.

A adoção pautada na caridade não é inferior a adoção por amor, mas são distintas e sendo assim, conduzem à trajetórias distintas também. Tanto uma como a outra podem resultar em processos muito bem sucedidos, desde que a mãe, figura principal nesse contexto, tenha consciência de suas motivações, assuma para si mesma o que a levou a decidir pela adoção, que lugar esse bebê ocupará em sua vida e que lugar ela ocupará na vida dele.

Por isso, o processo de decisão forense pela adoção exige entrevistas com um profissional da psicologia, com o propósito de avaliar os aspectos mencionados anteriormente. Além da entrevista com o psicólogo forense é aconselhável que mãe e pai recebam orientações de profilaxia psicológica, para poder falar de seus sentimentos e assim organizá-los.

Um dos clássicos conflitos que se instauram diante da adoção envolve questões como: Contar ou não a verdade para o (a) filho (a)? Quando? Como? Quem?

Em geral, a busca pelo psicólogo começa nesse ponto, pois a criança diante do “não dito” da mãe e do pai, fantasia histórias diversas com base nos fragmentos de verdade que possui e normalmente, somatiza essa lacuna, vive corporalmente a formação de sintomas desencadeados emocionalmente.

Não é preciso que seja sofrível assim, nem para as mães e pais adotivos tão pouco para as crianças adotadas. A verdade tem o incrível poder de libertar, por mais assustadora que ela seja.

O impedidor da verdade é o medo da consequência. Medo de que a criança já não ame mais como antes os pais adotivos e que a existência dos pais biológicos estabeleça uma certa concorrência, gerando insegurança. Contudo, insegurança maior será vivida se a verdade for negada.

Quanto mais confiante for a mãe em relação ao seu desempenho, desejo de acertar e disponibilidade, quanto mais apoio ela receber, mais facilmente ela lidará com esses receios. E para isso, talvez ela precise contar com um profissional.

Em qualquer circunstância, o que inaugura uma mãe é um filho, independente de sua origem, e, essa informação inicial não tarda a perder espaço, predominando o que realmente importa, que é a relação entre eles, a história que juntos escreverão e os afetos nutridos nesse trajeto.

Flávia Moreno
Flávia Moreno Psicóloga Clínica Maiêutica

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